Confira esta entrevista e visite o site de Rui Gato em: http://www.ruigato.info/
- Qual a sua formação e como se envolveu com arte?
Desde muito jovem que o meu sonho sempre foi ser cientista louco! Quando tive de optar nos estudos, escolhi arquitetura, pois me parecia uma boa mistura entre a tecnologia e a arte, mas rapidamente a minha paixão pela música e pelo mundo sônico suplantou o interesse pela arquitetura, e ao 4º ano da formação, resolvi parar e dedicar por completo o meu tempo às artes temporais.
- Como surgiu o convite para o Red Bull House of Art?
Em 2003 participei da Red Bull Music Academy em Cape Town (África do Sul), e desde aí que mantenho uma relação próxima com a crew da RBMA internacional e nacional. O Miguel Silva da Red Bull Portugal ligou-me a dizer que tinha sido convidado pelos curadores do Red Bull House of Art para participar em São Paulo, e aceitei o convite!
-Que obras vai apresentar no evento e como elas foram concebidas?
Vou instalar uma obra - e seu respectivo making of - chamada "STRETCH", que foi apresentada no evento Torino World Design Capital 2008, na exposição coletiva "Flexibility - Design in a fast-changing society", e que consiste numa trilha sonora espacializada em sistema surround, totalmente fabricada a partir da gravação da última nota de uma corda de piano, antes da mesma quebrar por excesso de tensão. Irei desenvolver uma peça site specific durante a residência artística, para instalar no final do mês de novembro.
- O que espera desta troca de experiências com os outros artistas?
Este tipo de oportunidade é sempre fantástico, pois nos permite reconsiderar uma série de pontos de vista em relação às diversas disciplinas artísticas envolvidas, bem como conhecer e partilhar experiências com diferentes artistas de diferentes nacionalidades, permitindo criar uma mescla artística bem interessante. As relações de amizade são também muito gratificantes, devido à paixão em comum pela Arte, e à troca de ideias e experiências.
- Você se define como sound designer/ músico. Qual a principal diferença entre estas duas formações?
A principal diferença é que ao Sound Design está associada uma função ou um conjunto de intenções, que delimitam a ação artística, enquanto que na Música, o artista é livre de fazer o que entender. Esta aparente limitação do Sound Design não é necessariamente má, pois pode ajudar a criar um método projectual que facilita o trabalho em equipe ou parceria, bem como a criação de fluxos de comunicação multidisciplinares. Muitos dos trabalhos que tenho feito têm a linha divisória entre estas duas formações muito pouco definida, ou seja, com grandes doses de flexibilidade e liberdade criativa.
- Sua experiência inclui trabalhos no ramo da Publicidade e da Arte. Como é o seu processo criativo em ambos os casos? Existem diferenças ou não?
Os processos criativos relacionados com as áreas mais comerciais são, normalmente, resultantes de uma ideia base gerada pelo diretor artístico que, por sua vez, se traduz num conjunto de soluções que quase sempre requerem um processo de R&D muito intenso e rápido, para cumprir com os prazos loucos do mundo da publicidade. Estamos a falar às vezes de conseguir responder em um ou dois dias com soluções que cumpram a sua função e ao mesmo tempo sejam inovadoras. Ora, os processos criativos relacionados com projectos artísticos, sejam eles totalmente musicais, ou mistos (teatro, performance, instalação, cinema, arquitectura, etc), gozam de um timeframe geralmente mais alargado, que permite dar espaço ao desenvolvimento do conceito, à experimentação, ao respirar da ideia. ambos os universos se contaminam, e dou por mim muitas vezes a utilizar know-how e referências artísticas em processos comerciais, e vice- versa! Acho que essencialmente a diferença é a função (se existe ou não) e o tempo. Precisamos de mais tempo, em geral.
- Algum trabalho favorito que gostaria de destacar? Porque?
A instalação sônica no Jardim de Santos, em Lisboa (ExperimentaDesign, em desenvolvimento), porque acho que é um trabalho que mistura bem as duas disciplinas (Sound Design / Música). Esta instalação baseia-se na criação de um ecosistema sônico permanente, que reage ao meio físico (temperatura, umidade, vento, etc), e que tem hipótese de crescimento através da participação de outros artistas na base genética musical do ecosistema.
- Já esteve no Brasil alguma vez? Caso sim, quando e onde?
Já sim, estive em Salvador da Bahia, em 2005, de férias. Muito bom, cultura fantástica, praias lindas.. Sempre pronto para voltar!
- O que conhece da música e dos artistas do Brasil? Já fez uso da música brasileira em seus trabalhos?
Desde sempre que estou habituado a ouvir os grandes nomes da música do Brasil, pois a minha família sempre ouviu boa música! Caetano, Vinicius, Gilberto, Jobim, Hermeto, Marcelinho da Lua, Moreno, Domenico, Kassin, Clara Crocodilo, Sepultura, Patife, só para dizer os que me vêm à memória agora..
- Fora o Red Bull House of Art, como esse tempo no Brasil poderá contribuir para o seu trabalho?
Irá ser uma bolsa de ar fresco, pois o meu trabalho sofre da constante ebulição e caos de vários processos simultâneos, que eu tive de fazer o esforço de os por "em pausa" para poder me dedicar em completo na minha participação no Red Bull House of Art. Vai ser bom recontactar com processos e ferramentas que muitas vezes não podem ser utilizadas no trabalho comum, e voltar a deixar correr livre o laboratório sônico totalmente dedicado à Arte.
- Agora, uma curiosidade pessoal: qual a trilha do seu i-Pod?
Ouço um pouco de tudo, não sou esquisito - tirando raras exceções, claro!. Normalmente ponho em 'shuffle' e tanto posso estar a ouvir abstrakt hiphop e a seguir surgir John Cage e depois saltar para Tunng, depois passando por Bach, e voltando para Sonic Youth, fazendo curva para Alva Noto, passando por Boards of Canada, etc etc... Vocês ficam com a ideia, certo?
Mais em: redbullhouseofart.com.br
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