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Nunca vi ou ouvi, mas dizem que Silvana Barrichello, esposa do piloto brasileiro Rubens Barrichello, certa vez disse que não queria ver o marido correndo em ovais. Mas, com apenas uma porta (ou melhor, diria, “janela”) aberta na Fórmula 1, Rubinho tem nas mãos uma grande oportunidade.

Uma oportunidade da vida, eu diria.

No início dessa semana, Rubens fez testes na pista de Sebring, nos Estados Unidos, com o Dallara-Chevrolet da equipe KV. No primeiro dia foram nada menos que 250 km, quase o mesmo que um GP de F1, e o suficiente para que Rubinho saísse do monoposto dizendo estar feliz "como um garoto". Também admitiu que pensa com carinho na proposta de correr na categoria, mas que, para isso, precisa conversar com a família e com o dono da equipe, Jimmy Vasser, que, aliás, não poupou elogios ou piloto de 39 anos.

Na F1, há apenas uma vaga disponível, na fraquíssima HRT, que nem equipe da categoria deveria ser considerada. Além de ser improvável a conquista deste cockpit, o piloto brasileiro faria apenas figuração de luxo por lá. Agora, na Fórmula Indy, a situação muda de figura.

Para 2012 a categoria está introduzindo um novo chassis (o anterior não tinha grandes mudanças desde 2003), mais seguro e que, de certa forma, nivela um pouco mais as possibilidades entre pilotos estreantes e aqueles mais experientes na categoria. Diria até que a capacidade de Barrichello no acerto de carros pode ajudá-lo ainda mais, pois aumenta as chances dele encontrar o acerto ideal antes dos rivais. Para você ter uma ideia, já neste primeiro teste, Barrichello ficou apenas 0.1seg atrás de Tony Kanaan. Foi o suficiente para que batessem nas costas dele e “cara, volta aqui amanhã e senta o pé na barata”.

E é o que Rubinho fará hoje, dia 1º de fevereiro, novamente em Sebring.

Há, claro, o problema dos ovais. Não que Rubens deveria temê-los, mas a escola de automobilismo do brasileiro foi no Brasil e na Europa, onde todo mundo é avesso aos ovais. Mais uma vez há um fator sorte para Barrichello: em 2012 teremos apenas quatro circuitos deste tipo no calendário, incluindo a mítica 500 Milhas de Indianápolis. É só não fazer feio nelas que está valendo. Os circuitos de rua e mistos são a maioria (11, para ser mais exato), incluindo um nas ruas de São Paulo, dentro do Anhembi. Tá aí a chance de conquistar algo que o brasileiro sempre correu atrás: vencer em casa. Só não vai ser em Interlagos...

As características das equipes nos EUA também têm tudo para trazer um ambiente que Rubens Barrichello sempre quis. Não há, necessariamente, primeiros e segundos pilotos. Mesmo nas grandes equipes, com dois ou mais carros, muitas vezes cada carro é tratado como uma equipe em separado, com sua verba, patrocínios, metas e tudo mais. Acaba a história de primeiro piloto, segundo ou até mesmo de “1B”. Claro que levar o dinheiro de um grande patrocinador, algo que Rubinho não tem conseguido mais fazer, é um problema, mas o chefe da IndyCar, Randy Bernard, já avisou: fará tudo o que é possível para levar Barrichello para a categoria.

E, olha, exemplos de brasileiros de sucesso nos circuitos estadunidenses não faltam. Que o diga Emerson Fittipaldi, que depois de um sucesso fulminante e um bicampeonato na F1 viu os anos e as oportunidades passarem na equipe que tocava com o irmão Wilson. Já execrado pela mídia, resolveu se aposentar. Porém, a oportunidade de correr na América surgiu e Emerson viu não só o restabelecimento de seu nome como um grande piloto como também venceu duas vezes as 500 Milhas de Indianápolis (1989 e 1993) – além de vencer o campeonato durante uma temporada (1989).

Quem sabe Rubens Barrichello não repete os passos de Fittipaldi e cresce com bons resultados na F-Indy, hein?

Outro exemplo de piloto da F1 que (quase) tentou a sorte nos Estados Unidos foi Ayrton Senna. Com a ajuda do próprio Fittipaldi, Senna guiou um carro da equipe Penske no final de 1992, quando estava muito frustrado com os resultados da McLaren naquele ano e havia sido vetado no seu projeto de correr na Williams por Alain Prost. No final, Senna continuou na Europa, mas aquele teste, entre outros fatores, serviu depois como pressão para que a Ford concedesse para a McLaren os mesmos motores da Benetton. Um assunto para outra hora...

No casso de Rubens, o “Fittipaldi” que o convidou para o teste é o amigo de longa data Tony Kanaan, que atualmente também pilota pela KV. A história entre as duas famílias, aliás, deveria virar um filme. Tony perdeu o pai muito cedo, mas contou com todo o suporte dos Barrichello para continuar com a carreira. Hoje, Tony está consolidado como um piloto de sucesso e com um título da Indy no currículo.

Se foi, entre outros fatores, por causa dos Barrichello que Tony teve uma carreira de sucesso no automobilismo, agora é a vez de um Kanaan retribuir ao Barrichello mais ilustre com uma oportunidade de voltar a ter sucesso em sua carreira.

Obrigado, Tony. Agora só ajude a convencer a dona Silvana, fechado?


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