Red Bull House of Art: Regina Parra (Brasil) Red Bull Photofiles

A técnica de Regina destaca-se no uso de recursos tradicionais como óleo e canvas ao retratar situações a partir de fotos de jornais ou de cenas de câmeras do tipo CCTV. Leia a entrevista com a artista e saiba mais sobre ela também em: http://reginaparra.blogspot.com/

Qual a sua formação e como se envolveu com arte?
Antes de fazer artes plásticas na Faap, eu fiz artes cênicas na ECA/USP e trabalhei como atriz e assistente de direção no CPT (Centro de Pesquisa Teatral coordenado pelo Antunes Filho). Fiquei no CPT três anos, um período muito importante para mim porque o Antunes sempre buscou dar uma formação completa para os atores. Então, apesar de trabalhar com teatro, discutíamos filosofia, cinema, dança e artes plásticas também.

Logo depois que saí do CPT, fui morar no Rio de Janeiro. Fiquei um ano por lá fazendo cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Tive aulas de pintura e também de teoria com profissionais como Wilson Coutinho e Paulo Sergio Duarte. Apesar de já ter tido contato com pintura quando criança – fiz meu primeiro curso aos 11 anos – foi só no Parque Lage que eu comecei a pensar na possibilidade de levar isso adiante.

Foi aí que eu fui para Paris para fazer um curso de pintura na École des Beaux Arts. Fiquei lá três meses e quando voltei, resolvi voltar para a faculdade – dessa vez para cursar artes plásticas.

Me formei na Faap em 2008 e agora faço Mestrado em Artes Visuais na Faculdade Santa Marcelina.

 

- Sobre a sua experiência com Antunes Filho: De que forma o universo teatral inspirou a sua carreira como pintora?
Trabalhei com o Antunes Filho por três anos. Foi um período muito intenso porque o CPT funciona como uma espécie de rito de passagem, você meio que abdica de tudo e passa a viver só em função daquilo por um tempo. É pesado porque o Antunes é um cara super exigente e sempre trabalha no seu limite. Ao mesmo tempo, é muito bom porque é uma possibilidade de mergulhar de cabeça numa pesquisa que não fica limitada só ao teatro. Na verdade, o teatro, o espetáculo, é um pretexto para tratar de outras questões. Então foi uma oportunidade muito boa para tentar entender quais questões são importantes para mim e porquê.

Eu ainda carrego muita coisa do CPT, que aprendi com Antunes e com o processo criativo dele. Acho que a disciplina que tenho hoje no meu trabalho é uma das heranças. Assim como um pensamento artístico que integra as diferentes áreas ao invés de separar e compartimentar.

Além disso, o ponto central da pesquisa do Antunes é trabalhar com uma atuação ‘distanciada’. Ou seja, para que a cena seja realista, não basta ficar lá agindo naturalmente, é preciso contruir essa realidade, esse naturalismo. E não é uma cosntrução gratuita, todos os gestos, elementos de cena, entonações são simbólicos.

Na pintura também tenho essa preocupação em construir a realidade sabendo que tudo ali significa, tudo ali tem seu valor. Acho que a fatura pictórica acaba funcionando como um elemento distanciador, que gera certa estranheza.

- Como surgiu o convite para o Red Bull House of Art?
A Maria Montero (curadora do projeto juntamente com Lucas Bambozzi) já conhecia meu trabalho há um tempinho. Quando surgiu esse projeto ela entrou em contato comigo e eu fiquei muito interessada em participar.


-Que obras vai apresentar no evento e como elas foram concebidas?
Nessa primeira exposição, vou mostrar três pinturas óleo sobre papel da série "Rumor". Essas pinturas foram criadas a partir de frames câmeras de vigilância, uma pesquisa que comecei em 2007. São imagens ambíguas onde todos são suspeitos e nada é certo. As situações se revelam aos poucos, e nunca inteiramente – como um rumor, que se espalha sem confirmação nem desmentido, deixando um rastro de apreensão e receio.

- O que espera desta troca com os outros artistas
É sempre muito bacana quando temos oportunidade de trocar experiências com outros artistas. O trabalho de artes plásticas acaba sendo muito solitário -- especialmente no meu caso que faço pintura e passo a maior parte do tempo sozinha no ateliê -- então é sempre muito produtivo entrar em contato com outros universos, ter outros interlocutores para trocar ideias.


- Qual o principal legado do período em que estudou no Parque Lage, no Rio?
O Parque Lage foi decisivo na minha formação porque foi quando tive um contato mais intenso com arte contemporânea e, especialmente, com pensadores e teóricos como Wilson Coutinho e o Paulo Sergio Duarte. Foi nesse período que me interessei por artes visuais e decidi que era isso que eu queria fazer.


- Durante sua temporada carioca, você chegou a trabalhar como garçonete. De alguma maneira, essa experiência também virou referência dentro do seu trabalho artístico?
Não, não teve nenhuma influência no meu trabalho. Foi apenas a forma que consegui para me sustentar no Rio enquanto fazia os cursos no Parque Lage.

- Você enxerga o Rio como uma cidade artística por natureza? Algo a dizer sobre os cariocas?
Gosto muito do Rio de Janeiro e dos cariocas também. E é claro que a cidade tem uma beleza indiscutível. Vou com bastante frequência para o Rio, e mesmo assim, toda vez que chego fico surpresa com a Baía de Guanabara e a Praia de Ipanema.

- Como define a sua experiência na École Nationale Supérieure des Beaux Arts em Paris?
Fique três meses estudando pintura na École. Foi um período curto mas muito intenso. Não só pelo curso mas, especialmente, pela oportunidade de viver em Paris e entrar em contato com tudo o que a cidade oferece. Pude visitar museus diariamente e com a devida calma. Isso é muito raro e muito enriquecedor. Também tive a oportunidade de ver exposições contemporâneas muito bacanas como uma retrospectiva da Sophie Calle no Pompidou, por exemplo.


- Em entrevista publicada no seu blog, você diz que o horror iminente sempre acompanha as suas obras. Qual reflexão você quer inspirar nos espectadores a partir desta ideia?
Na verdade, o que eu acho é que meus trabalhos têm sempre uma atmosfera instável. Não necessária de um horror iminente. Mas como se aquela imagem carregasse uma tensão latente. Como se tudo ficasse permanentemente por acontecer. Os trabalhos fornecem pouca informação para o espectador, então, tem-se sempre uma narrativa fragmentada, incompleta, que foi deixada em suspensão. Nada fica claro. Aquilo que parecia tranquilo e aparentemente inofensivo, de repente mostra-se perturbador. Ainda que não se saiba de onde vem essa perturbação.

Mais sobre o Red Bull House of Art em redbullhouseofart.com.br.


Comentários

    Adicionar um comentário

    * Todos os campos são obrigatórios
    Até 2000 caracteres :
    Escreva a palavra à esquerda e clique em "Publicar comentário":

    Detalhes